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Leandro Veal, primeiro brasileiro a jogar na NFL

NFL/Site Oficial

Após ler a matéria sobre a história de Demetrian Leandro Veal, o primeiro brasileiro da história a ter atuado na NFL. É hora de ver como foi a entrevista com o jogador que atuou por Atlanta Falcons, Denver Broncos e Tennessee Titans, entre 2003 e 2007. Durante uma semana, eu, Felippe Drummond Neto, do Jornal Hoje em Dia e do Sports USA, e a jornalista carioca Fernanda Pessanha, do site Torcedores, conversamos e entrevistamos Leandro que atualmente mora e trabalha na Suécia. O resultado de tudo isso você confere a seguir.

>>Conheça Demetrin Leandro Veal – O primeiro brasileiro da NFL

Seu nome completo é Leandro Demetrin Veal? Você nasceu em Salvador (BA), no dia 8 de agosto de 1981. Certo?

Sim, Demetrin Leandro Veal, nascido em 11 agosto de 1981.

No site da NFL, aparece que você é americano, nascido em Paramount, CA. Porque?

Assim que me mudei para os Estados Unidos u fui para uma escola em Paramount, e quando entrei na Faculdade eles apenas colocaram que a minha cidade natal era Paramount. Não que eu tenha nascido lá, minha mãe mudou-se para lá durante a minha adolescência.

Quando se mudou para os Estados Unidos onde você morou?

Me mudei para os Estados Unidos com cinco anos. A princípio morei no sul da Califórnia. Inicialmente em em Orange County. Em seguida, mudei-me para Los Angeles.

Você se mudou para os EUA quando tinha cinco anos. Como isso aconteceu?

Tive a sorte de ser adotado diretamente em Salvador. Sei que nem todas as crianças tem a chance que eu tive. Por isso, sou grato todos os dias por isso ter acontecido comigo.

Você sempre soube que você era brasileiro?

Pra falar a verdade nem sempre. É difícil de explicar para uma criança que foi adotada por outro país. Mas, ao longo dos anos, meus pais foram conversando comigo aos poucos. Além disso, uma coisa boa nisso tudo é que como ainda era uma criança pude aprender rapidamente a falar inglês, aliás, não lembro como fala português. Mas lembro que falava.

Como foi a sua relação com o Brasil? Você sabe se tem alguma família aqui?

Quando fiz 20 anos, poucas pessoas sabiam sobre isso, apenas os meus companheiros de time e amigos íntimos. Mas isso foi antes das redes sociais, então era mais fácil esconder. Por isso, acho que ninguém se atentou por eu ser brasileiro e estar jogando futebol americano. Eu era igual a todos os adolescentes. Mas depois de tudo isso, resolvi voltar ao Brasil e tentar criar uma relação com o país onde eu havia nascido. Apesar de não encontrar a minha família biológica, fiz algumas famílias lá.

Como e quando você começou a jogar futebol americano? Era seu esporte favorito?

Meu treinador no ensino médio jogou futebol americano, apesar de eu nunca ter assistido nem praticado ele achava que eu tinha potencial. Sempre fui tímido e até meio devagar na escola. Gostava era de surfar andar de skate, participava do clube da matemática, jogava polo aquático, e brincava de futebol americano, mas nada sério. Aliás, naquele tempo, ninguém jogava futebol americano na Califórnia.

Você nunca teve interesse de jogar o nosso futebol?

Na verdade eu não comecei a jogar futebol americano, porque era meu sonho. Eu comecei a jogar porque eu cresci muito rápido e decidi tentar algo novo. Meu treinador me perguntou se eu conseguia jogar aquele esporte. Foi aí que descobri que eu era bom neste esporte. Acho que isso é o sangue brasileiro, somos naturalmente atléticos. Pra falar a verdade, nunca pensei em ir para a NFL, estava apenas se divertindo e aprender um novo esporte.

Já que você nasceu no Brasil, você também foi o primeiro brasileiro a ser draftado, como foi isso?

Então, quando chegou o dia do Draft, eu estava em casa, com meus agentes e esperando para ver se seria selecionado. Passaram o segundo e terceiro rounds. Recebi telefonemas de equipas do 1º round dizendo que queriam me escolher na próxima escolha. Mas isso não aconteceu, até que finalmente foi selecionado na sétima rodada. Chorei muito na hora. É inimaginável olhar como comecei e o que consegui através do futebol americano.

Como foi sua carreira na NFL?

Fui escolhido pelo Atlanta Falcons, em 2003, depois joguei pelo Denver Broncos, entre 2004 e 2006, e terminei minha carreira no Tenessee Titans, em 2007. Talvez eu tivesse jogado mais tempo na NFL, mas na minha primeira semana com os Titãs rompi parcialmente o ligamento colateral do joelho e perdi o resto da temporada. Depois tentei voltar antes da hora, jogando na UFL (United Football League), em 2009 pelo Florida Tuskers, que era tipo uma segunda divisão nacional. Infelizmente eu não estava pronto. Em 2010, já recuperado, joguei pelo Omaha Nighthawks, sonhando em voltar para a NFL. Voltei bem, fui um dos melhores Defensive Tackle da liga. Porém, a NFL entrou em greve (lock-out), em 2011. Por isso decidi me aposentar.

Qual foi o time da NFL que você mais gostou de jogar? Porque?

Meu time preferido na NFL foi o Denver Broncos. Os torcedores de lá eram ótimos. Mas os melhores com certeza são os da faculdade. Joguei em uma defesa que conquistou o recorde de passar 13 quartos sem sofrer nenhum Touchdown.

Você sempre jogou na defesa? Ou atuou em alguma outra posição?

Quase sempre joguei na defesa. Mas na escola o técnico tentou me colocar como Linebacker, Defensive End, Runningback, Tight End e até no time de especialistas. Acho que por ter jogador polo aquático e futebol (soccer), o técnico sempre achou que eu poderia correr. Eu era alto, rápido e forte, o que normalmente são características de linebacker, e na faculdade joguei de Defensive End e Defensive Tacker, foi quando vi que meu lugar era como DT.

Depois de parar de jogar futebol americano você lutou MMA. Por que você decidiu se “aposentar” de futebol? E por que decidiu tentar MMA?

Assim que parei de jogar futebol americano, comecei a treinar com alguns lutadore de MMA, já que meu treinador no Colorado era o mesmo de muitos lutadores. Perguntei se podia participar do grupo para me manter ocupado. Mas, após um tempo treinando comecei a ficar bom. Treinava com vários lutadores pesos pesados do UFC como Shane Carwin, Brendan Schaub, Nate Marquardt, Cody Donovan, Elliott Marshall e Bobby Lashley. Acho que por isso fiz essa transição da NFL para o MMA tão rápido. Ainda como amador fiz quatro lutas e venci as quatro, antes de estrear no profissional, também com vitória, mas, parei porque era difícil encontrar lutas. Até hoje, quando tenho a oportunidade, treino com lutadores. É divertido e me ajuda a manter minha competitividade.

Leandro

Você considera sua carreira no MMA bem sucedida?

Talvez se eu tivesse continuado, eu teria sido um bom peso pesado. Mas, não me arrependo de ter parado. É vida que segue.

Pela informações que apuramos, depois de tudo isso, você veio ao Brasil para jogar pelo Vitória All Saints, da Bahia. Como foi essa experiência? E por que você parou?

Voltei ao Brasil em 2012, muito mais para aprender como é ser baiano. Me encontrei com dois caras que assim como eu foram adotados quando crianças, e tinham voltado para fazer a mesma coisa. Um deles foi adotado e mudou-se para a Suíça, e outro para a Alemanha. Me senti em casa, por saber que não era o único. Foi tipo montar um quebra cabeça, tudo foi se encaixando normalmente. Hoje coloco aquilo entre os três melhores momentos da minha vida. Mas acabou que não joguei pelo Vitória, apenas conheci a equipe e dei algumas dicas.

Como foi essa experiência com o Vitória All Saints?

Não sabia nada sobre a equipe, na verdade, eu nem sabia que existia futebol americano no Brasil. Fiquei chocado e feliz. Meu amigo Jeffrey Lasogga jogou, treinou, e gerenciou a equipe, mas eu não cheguei a jogar lá.

Atualmente o que você está fazendo?

Em 2014 eu estava de férias na Suécia acompanhando um parceiro de negócios que morou em Estocolmo. Foi quando conheci um americano que estava morando e jogando futebol americano lá, fiquei surpreso com isso. Ele me apresentou ao Tyresö Royal Crowns, e eu lhes dei algumas dicas de defesa sobre como ler o posicionamento da linha. Depois disso, eles me perguntaram se eu estava interessado em treiná-los. Resolvi aceitar afinal é o que eu amo fazer, e hoje sou o treinador de linha defensiva e coordenador defensivo.

Quando você está de férias o que você costuma fazer?

Quando não estou trabalhando na Suécia, fico em Denver que é onde eu moro, ou em Scottsdale no Arizona. Mas penso em me mudar de volta para Salvador ou outra cidade brasileira. Talvez até para São Paulo onde poderia morar com o meu amigo Clayton Lovett.

Você tem um projeto social em Salvador? Porque resolveu montá-lo?

O Clayton Lovett vem trabalhando com os jovens brasileiros por anos, então, eu tentei iniciar com ele um centro comunitário para crianças em Salvador. Começamos a “Our Kids Together Foundation”, proporcionando às nossas crianças uma chance de ser bem-sucedidos. Basicamente, eu não estaria onde estou sem uma ajudinha, então, sinto que não é somente minha obrigação, mas também minha responsabilidade passar essas bençãos para a próxima geração o máximo que puder. Esta é a razão para isso: é educar, aconselhar, através da disciplina do futebol americano, força mental, além de ensinar às crianças um esporte que me deu tanto na vida.

O Brasil é hoje o terceiro mercado estrangeiro da NFL, atrás apenas de México e Canadá. Como você esses números e o crescimento do interesse dos brasileiros?

Estou empolgado por ver o quão grande o futebol americano se tornou no Brasil. É incrível, para mim, como as coisas mudaram tão rápido desde quando eu jogava para agora. O futebol americano está logo atrás do futebol (soccer) hoje em dia, o que é extraordinário. Eu vi futebol americano em Israel, quando viajei pra lá, conheci times na Itália, outros na Croácia, é impressionante. E fico muito honrado de poder que eu fiz isso, pratiquei este esporte por muito tempo.

Com esse grande interesse dos brasileiros sobre a NFL, você tem ideia de que pode ser famoso por aqui já que é de fato o primeiro atleta do país a ter jogado lá? O que pensa sobre isso?

Eu nunca pensei em ser famoso no Brasil por jogar futebol americano. Eu me sentia estranho até sendo, de alguma forma, famoso nos Estados Unidos, quando as pessoas me reconheciam na rua, mas nunca nem pensei sobre isso acontecer no Brasil. No entanto, eu quero fazer parte de toda essa irmandade de brasileiros que jogam/jogaram na NFL. Eu sempre vivi uma vida privada e só inspirava as pessoas com o quanto eu tinha trabalhado duro e me dedicado para chegar lá, para fazer acontecer; e isso me gerou muita fama e respeito de todos. Então, pra mim, não é uma questão de ser o primeiro, mas uma questão de ser reconhecido, pois todos nós fizemos parte disso, e eu quero que esse seja o nosso legado. Sim, eu nasci no Brasil e consegui chegar lá, mas deveríamos ser 4 “filhos” do Brasil que jogamos na NFL (referindo-se a Damian Vaughn, Cairo Santos e Breno Giacomini). Tenho orgulho de fazer parte desta irmandade.

Como ainda são poucos os brasileiros que participaram de partidas da temporada regular da NFL, como você se sentiria em aparecer encabeçando uma lista, uma espécie de Hall da fama, dos brasileiros?

Eu ficaria honrado de entrar para o “hall da fama” dos brasileiros na NFL, minha mãe provavelmente iria chorar.

Mande um recado para os fãs brasileiros

E para os fans: Eu apenas gostaria de inspirar adultos, crianças, todo mundo. Estamos lidando com “uma mão” de cartas todos os dias de nossas vidas. Mas trabalhe duro, tente o máximo que puder, respeite a jornada e aqueles que es importam com você. O resultado final não é certo, mas uma nova força nascerá deste fogo. Aí, é quando você encontra o sucesso.

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